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Too few to mention

Tenho 30 anos e algumas experiências.  Fiz ginástica olímpica. Viajei, competi, recebi medalhas (poucas, mas significativas). Morei e cresci no melhor lugar do mundo.  Fiz primeira comunhão. Estudei em colégio particular. Estudei em colégio público. Estudei com brancos, pobres, negros, ricos.  Fiz capoeira. Morei no interior. Morei na capital. Morei na maior cidade do país. Morei no exterior. Viajei pra praias e cachoeiras. Subi picos, já até escalei. Estudei em faculdade particular. Estudei em faculdade pública. Morei na Sibéria. Fiz pesquisa com quilombolas e reassentados no sertão de Minas. Li relativamente bastante. Vi muitos filmes.  Escrevi uma dissertação. Viajei pra Europa.  Casei. Conheci lugares na América Latina e Caribe. Conheci pessoas com diversas histórias de vida.

Muita coisa que me acrescentou, me ensinou e me formou.

Então por que, por que sinto que sei tão pouco e fiz tão pouco?

O assovio dos chatos

Seguinte. Já li “O apanhador no campo de centeio”, em português, quando era adolescente.  Mas sei lá. Não me tocou um quinto do que a versão em inglês (“The catcher in the Rye”) tem feito comigo hoje.

Depois de ler várias vezes – em seguidos dias – o mesmo trecho, não vi saída a não ser postá-lo (leia-se: torná-lo mais facilmente acessível a mim mesma)

(Pg 123) – Holden Cauffield conta que morou, por cerca de 2 meses, com Harris Macklin, um típico ‘chato de galochas’. Ele diz que o cara é chato (bore), em vários sentidos, mas assoviava como ninguém. Podia assoviar de música clássica a jazz – e isso o encantava. E assim ele conclui o pensamento (Pg 124):

“So I don’t know about bores. Maybe you shouldn’t feel too sorry if you see some swell girl getting married to them. They don’t hurt anybody most of them, and maybe they’re all terrific whistlers or something. Who the hell knows? Not me.”

É foda ou não é?

(ATTRIBUTION: Salinger, Jerome David. The narrator (Holden Caulfield). The Catcher in the Rye, USA: Little Brown and Company. [1951], 1991.)

Versão em português: Tradução

“Por isso, tenho minhas dúvidas quanto aos chatos. Talvez a gente não deva sentir tanta pena de ver uma garota legal se casar com um deles. A maioria não faz mal a ninguém e talvez, sem que a gente saiba, sejam todos uns assoviadores fabulosos ou coisa parecida. Nunca se sabe…”

Porém, em vez do “Nunca se sabe” o que mais gosto é que na conclusão original ele finaliza, mais literalmente, com algo assim: “Quem vai saber? Não eu”.  - É isso que me mais me encanta.

Da série “eu queria ter feito isso”. Impossível não sorrir junto.

Deveríamos fazer isso mais vezes! Não só com os motoristas, mas com todas pessoas ao redor. Quem sabe?

Fica a tentativa.

Eu, você e meus eus

Tem uma época na vida em que a gente gostar de dizer “Sou assim e quem quiser que me aceite como sou”.  Grande bobagem. O mundo não se define por nós contra todos. O mundo nada mais é do que nossa relação com ele.

Primeiro porque, ensimesmado, jamais descobriria quem você “é”. Muito menos a grande quantidade de “eus” que você pode suportar e que devem, em sua diversidade, ser conservados – com um centro em comum, de preferência.

Além disso, essa afirmação subestima o prazer que é adaptar-se ao outro. Qualquer que seja ele. Uma vez abertos a isso, podemos nos desvencilhar de manias burras, hábitos pouco saudáveis ou radicalismos desnecessários. E estaremos, finalmente, abertos ao outro.

Se pensarmos bem, seria possível escrever muitos posts sobre elevador. A possibilidade de troca social que nele acontece é incrível!

Então, para complementar o post anterior incluo um video muito inspirador. Ele sugere algumas ações para quem gosta de se divertir – ou se fazer de louco.

O troco

Essa semana fui acometida pela lembrança de um caso que aconteceu há alguns anos e que, sempre que nele penso, me enche a alma de esperança e os olhos d’água.

Eu não estava. Eram minhas mãe e vó sentadas em um bar no shopping quando uma menina, de uns 5 ou 6 anos, se aproxima para pedir um trocado para comprar uma coxinha. Cena clássica e até aqui, infelizmente, nada de novo. Como temos o hábito de não recusar comida, e com a confiança de que o destino dos reais seria mesmo aquele, elas deram.

Poucos minutos depois retorna a menina à mesa, explicando que comprou um pão de queijo porque era mais barato, por isso foi devolver o troco. Acreditam? Devolver o troco! Claro que as duas se emocionaram instantaneamente. Tem como ser diferente? Em resposta, disseram à menina que ficasse com o troco e comprasse algumas balas. A criança agradece e não tarda a voltar uma terceira vez, para oferecer as balas compradas.

Ah, como essa menina nos traz reflexões sobre a verdadeira necessidade das pessoas, a honestidade dos que nos pedem e a nossa desconfiança em relação a eles. Nos momentos de grande pessimismo, pensar em gente assim pode trazer de volta a sensação de que o mundo tem jeito. Ah, se tem!

Este é o primeiro post do ano. Estamos em março. Penso se o tempo passou enquanto eu dormia (ou se o tempo dormia enquanto eu passava).

Espalhadas nas redes, as conversam englobam toda sorte de assuntos: a demissão de John Galliano, as chuvas de São Paulo, o Oscar 2011, a renúncia de Mubarak, a demissão de Ronaldo, a morte de Moacyr Scliar, Dilma fazendo omelete na Ana Maria Braga – não necessariamente em ordem de importância.

E eu? Sobre o que escrevo? Sobre todos esses assuntos que leio. Sempre que os comento, gravo deles um pouco dentro de mim.

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