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Archive for the ‘Contos’ Category

O terno invisível

Era o criado mais antigo do palácio. Em um dia qualquer, por distração, não curvou-se ao Rei e foi despedido. Vagando pelo Reino e vendo o filho com fome, saiu em busca de algum fruto. Foi quando encontrou a velha.

“Com licença, senhora. Meu filho tem fome. Onde posso encontrar algo para alimentá-lo?”

“Por aqui não há frutos, nem animais. Deves plantar.”

O velho pôs-se a chorar, resmungando. “Não tenho o que plantar. Que mundo injusto! Eu passando fome, e o Palácio recebendo convidados para um baile com farto banquete, que ajudei a preparar…”

Não podendo ver um homem chorar, a velha ofereceu a ele um terno que o deixaria invisível, para que pudesse entrar no Palácio. Era elegante, feito de linho fino e uma cor belíssima.

“É verdade que me deixará invisível? Todos no palácio me conhecem, trabalhei lá durante anos!”

“Ninguém o verá, eu garanto”

Vestiu o terno esperançoso e, ao anoitecer,  foi em direção ao Palácio. Entrou com facilidade, o que o fez perceber que era verdade: estava invisível! Passou pelos outros criados, pelas princesas e pelo Rei, e ninguém o notou. Era inacreditável. Chegou perto da mesa e encheu os bolsos de frutas, pães e doces. Não se demorou pois a fome ficava cada vez mais forte.

Saiu rapidamente e foi até o filho para entregar-lhe tudo. A alegria do menino encheu os olhos do homem novamente de lágrimas. Comeram em meio a risadas. Foi quando o homem notou, estupefato, que não havia tirado o terno.

“Filho, podes me ver?”

“Posso sim, papai. Mas confesso que o senhor está tão elegante, que quase não o reconheci.”

*(Conto resumido, inspirado no mestrado de Fernando Braga da Costa, sobre Homens Invisiveis. Postado aqui em homenagem à minha amiga Balinha, que consegue ser bela e humilde – E me pediu um post.)

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Anti fábula dois

A raposa estava andando e viu um belo cacho de uvas no alto de uma árvore.

“Quero essas uvas” – pensou a raposa.

Ela chacoalhou a árvore e as uvas caíram a sua frente. Estavam deliciosas.

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O Segredo da Longevidade

Aos 92 anos, se encontrava deitada na cama do hospital há 10 dias. O câncer havia tomado quase todos os seus órgãos. Sua filha segurava sua mão todos os dias até que adormecesse.

Almoço do décimo dia, a enfermeira entra no quarto e confessa que não entende como ela ainda está viva, e que não deve passar desta noite. A filha chora.

A velha senhora, com um quase sorriso, diz: “Não é tão ruim. Se eu morrer hoje a noite, ainda tenho uma tarde inteira..!”

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Spasibo dlia vsie

Um dia a menina, de 9 anos, viu uma reportagem que mostrava pingüins sendo agasalhados, pois o frio estava mais rigoroso do que o esperado. Ela comentou com o pai, e ele falou que deveria ser “tipo na Rússia”, ou em algum lugar assim. E a menina disse: “Pai, um dia eu quero passar um inverno na Rússia”. E o pai, quase involuntariamente, retrucou: “Você não sabe o que está falando”.

 

Um dia a menina, de 24 anos, desceu do avião, e ao andar pela pista rumo ao aeroporto, teve seu primeiro contato com a neve. Ela apertou o cachecol, abriu os braços e sorriu para o vento frio que fazia voar os flocos brancos.

 

Um dia a menina, de 25 anos, disse: “Pai, um dia você tem que ver como é lindo o inverno na Rússia”.

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O rosto do taxista

Ontem aconteceu uma coisa estranha.

Como de costume, fui pro bar. Encontro de amigas, conversa sobre profissão, vida corrida, sonhos, homens, problemas, nada de novo.  As horas passaram, ficou tarde e eu tinha que voltar pra casa. Como pessoa a pé que sou, minha amiga ligou pra companhia de taxis que ela sempre liga e pediu pra que mandassem algum que aceitasse visa electron, afinal, a modernidade nos escraviza.

O táxi chegou e entrei. Dei boa noite ao motorista, falei pra onde eu ia, expliquei como pegava a rua e ainda dei referências. Eu não estava assim tão longe de casa, mas nem tão perto. No percorrer do caminho, como de costume me distraí, nada de novo. Chegamos na minha rua, avisei, pedi pra que ele fizesse uma baianada, porque meu prédio era do outro lado da avenida, e o carro parou. Ele me entregou a maquininha de visa electron, eu comentei como achei ótimo que agora os táxis têm isso (papo de elevador, mas melhor que falar do tempo), digitei minha senha e enquanto eu esperava a segunda via do comprovante, me ocorreu a percepção: eu não havia, até o momento, visto o rosto do motorista.

O que aconteceu?? Como eu dirigi a palavra a alguém que se encontra no mesmo veículo que eu e nem ao menos olhei no rosto dele ao falar o “boa noite”. Senti um desconforto muito grande e cheguei a demorar um tempo avaliando os traços dele, sem que ele percebesse, como se tentasse me desculpar, me redimir da frieza e impessoalidade que me haviam dominado momentaneamente.

Ele me entregou o comprovante, olhei nos olhos dele e disse: “boa noite.”

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Despedida

Se ela já achava o pai exigente, quando ele bebia o medo era dobrado. As marcas nas pernas e na altura das costelas a lembravam dos momentos de horror. Por muitas vezes havia desejado a morte do perverso homem.

Agora, no velório, sentia dor. O rosto seco, nem um rastro úmido lhe brilhava a face. Mas o aperto interior a fez sentir que chorava. Chorava sua liberdade, mas chorava acima de tudo o amor que sempre quis sentir, e que agora se esvaía.

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Retrospectiva

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Já era noite quando ela chegou em casa. Tinha sido um dia cheio. Tirou seus óculos, soltou seus cabelos recém cortados, aliviou os pés, agora fora dos saltos, e deitou-se.

Permaneceu alguns minutos na sala, repensando seu dia. Lembrou-se do frio que sentiu ao sair de manhã, e do calor insuportável na hora do almoço. A comida não estava boa, e ela reparou em um senhor sentado sozinho, no mesmo restaurante, apenas encarando o prato, sem tocá-lo. Tomava uma cerveja. Na hora do almoço, e sozinho…devia estar triste. Podia ser por uma mulher que o havia magoado. Ou poderia estar triste por uma mulher que poderia tê-lo magoado, mas nem teve a chance. É a primeira coisa que a gente pensa; culpa do sexo oposto. Mas poderia também ter discutido com o filho na noite anterior. Ou era apenas saudade das filhas que estavam longe, morando com a mãe. Ou estava triste por um problema não necessariamente dele, mas da mãe. Não são só os pais que sofrem com os problemas dos filhos, os filhos também sofrem com os problemas dos pais. Pensou em sua mãe. Cogitou ligar pra ela, mas preferiu fazer um chá. Levantou-se e pôs a água pra ferver. Enquanto esperava, lembrou-se da raiva que sentiu de um rapaz quando voltava pra casa. O sinal ficou verde e ele não andou. Ela buzinou, o rapaz assustou-se e arrancou o carro. Ele deve ter se distraído por cerca de 7 segundos. 7 segundos! E ela buzinou. 7 segundos foram suficientes para irritá-la. Mas ela nem tinha pressa, não havia ninguém a esperá-la em sua casa. Talvez fosse isso. Ele poderia estar pensando na namorada, e se distraiu, não viu o sinal abrir. Ela não tinha em quem pensar, então buzinou.

Retirou a chaleira do fogo, preparou seu chá. Pensou de novo em telefonar pra mãe. Telefonou. Disse que tinha tido um dia normal e perguntou como havia sido o dela. Não que estivesse realmente interessada, mas sentiu que deveria perguntar. Ao final da conversa, pensou em dizer à mãe que a amava, mas achou que a mãe já sabia disso. Desligou o telefone satisfeita, e tomou um banho quente. Vestiu seu pijama e separou uma roupa para o dia seguinte. Provavelmente ao amanhecer estaria frio de novo. Deitou-se, pensou em algumas coisas que deveria ter terminado, mas não quis. Terminaria amanhã. Seus livros estavam ao lado de um porta retrato, e nele uma foto com seu cachorro. Na verdade o cachorro era da mãe. Arrependeu-se de não ter dito à mãe que a amava. Sentiu saudade do cachorro e adormeceu.

O despertador tocou. Já era amanhã. Espreguiçou-se. Pensou em não ir trabalhar, mas é claro que iria. Levantou, calçou seus chinelos, sentiu frio.

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