Feeds:
Posts
Comentários

Este é o primeiro post do ano. Estamos em março. Penso se o tempo passou enquanto eu dormia (ou se o tempo dormia enquanto eu passava).

Espalhadas nas redes, as conversam englobam toda sorte de assuntos: a demissão de John Galliano, as chuvas de São Paulo, o Oscar 2011, a renúncia de Mubarak, a demissão de Ronaldo, a morte de Moacyr Scliar, Dilma fazendo omelete na Ana Maria Braga – não necessariamente em ordem de importância.

E eu? Sobre o que escrevo? Sobre todos esses assuntos que leio. Sempre que os comento, gravo deles um pouco dentro de mim.

Arte para todos

Era uma terça-feira. Na saída da USP fui ver a exposição de Storyboards do Kurosawa, no Instituto Tomie Ohtake. Já que estou dando monitoria pra uma aula de roteiros, e tal, não me senti tão vagal em plena semana útil. Só que chegando lá a exposição não tinha começado (no twitter, eu diria #fail). Mas como o tempo já estava perdido, entrei mesmo assim pra ver um apêndice da Bienal que se chama “Ponto de Equilíbrio”.

A exposição está legal, bem interessante, várias obras boas de muitos artistas, outras nem tanto, como era de se esperar. Mas antes disso, enquanto olhava a primeira sala, me deparei com uma cena que me congelou. Duas pessoas estavam paradas em frente a um quadro, uma dando explicações pra outra. Pensei: “vou filar a explicação do guia”. Chegando perto, fiquei ouvindo atentamente. O homem, de terno, explicava a uma senhora que aquele quadro guardava diversas formas. Os pontos pareciam formar um desenho, mas a cada vez que ele olhava, via um desenho novo. A mulher então colocou as mãos sobre o quadro formando uma circunferência que apontava uma visão maior sobre uma das formas, identificando um outro modo de olhar. E o homem dizia “isso mesmo, cada vez que eu olho pra esse quadro vejo uma coisa nova”. Só depois me dei conta de que o homem que falava era o segurança da sala que nos cumprimentou quando entramos, e a mulher vestia o uniforme dos funcionários da limpeza.

Pela primeira vez na vida senti a ausência da hipocrisia da arte como “marcadora privilegiada de classes”, como diz Bourdieu. Meu enorme respeito aos autores das obras que lá se encontram, mas essa foi a melhor parte da exposição.

obs: Queria colocar uma foto do quadro, mas não encontrei.
obs2: A exposição do Kurosawa começa neste sábado, dia 23/10 e fica até 28/11/2010.

Apenas uma nota a respeito do debate da semana: a tal demissão de Maria Rita Kehl do jornal O Estado de S. Paulo.

Para quem se interessar pelo caso, uma das maiores intelectuais do país escreveu, no dia 06 de outubro,  um excelente texto intitulado “Dois Pesos…” no qual ela discute o valor dos votos da classe média em relação ao voto do “povão”, defende o bolsa família e vai contra os argumentos de quem diz que os pobres, com os auxílios, ficaram preguiçosos.  Isso tudo após elogiar a postura do jornal em admitir apoio ao candidato Serra.

Hoje, dia 07, Maria Rita Kehl concedeu uma entrevista ao Terra contando que foi “demitida por um delito de opinião”. A situação, se confirmada, é ridiculamente absurda, ainda mais vinda do Estado de S. Paulo, que, como lembra a própria Kehl, está há meses reclamando de estar sob censura. O jornal também se pronunciou, dizendo que ela não foi demitida, apenas cumpriu seu ciclo como colunista (hãn?).

Walter Hupsel também se manifestou com o texto “Um charuto“, que nos dá muito o que pensar.

Bem, este é um resumo da tão comentada demissão, com os links para quem quiser ter acesso aos artigos. Não vou me alongar porque não gosto de posts gigantes, mas esta é uma discussão que vale a pena. De que será feita nossa mídia se um jornal respeitado, que deveria ser formador de opinião, não pode expressar dois pontos de  vista diferentes? Qual o sentido da mídia, se não pode estimular o debate público? Ainda bem que existe a internet, onde a gente ainda pode falar alguma coisa.

1. Coloque o despertador para as 7h30. Quando ele tocar, resolva dar “mais um cochilinho” e, após uma leve piscada, acorde novamente às 8h30.

2. 8h40: Levante da cama, ainda zumbi, e vá tomar café.

3. 9h00: Ligue o computador para ler email. Leia cada power point enviado com fotos bonitas e música, horóscopo, responda os emails de palhaçada dos seus amigos e por fim leia os de trabalho, mas ignore todos.

4. 09h30: Abra o tuíter. Leia todos os tuites do dia e atualize a cada 1 minuto esperando novos. Se estiverem tuitando pouco, procure mais seguidores pra ficar mais dinâmico. Depois de ler todos, perca 15 minutos pensando em uma coisa bacana pra tuitar.

5. 10h00: Clique nos link tuitados e vá até o youtube. Lá, perca muito tempo vendo videos bestas, clipes de música ou tragédias.

6. 10h40:  Entre no facebook e no orkut. Olhe fotos das pessoas pra saber o que elas andam fazendo. Olhe suas fotos pela milésima vez, pra ver se você ficou mais bonita (o).

7. 11h10: Por desencargo de consciência, abra uma página de jornal para ler as notícias. No entanto, clique apenas em links de artistas e acabe em blogs como Ego ou Te dou um dado.

8. 11h50: Olhe no relógio e se assute com a hora. Abra um livro e comece a estudar. Leia a primeira linha. Dessa frase lida, tire uma ideia de um post legal para o seu blog.

9. 12h00: Abra seu blog e comece a escrever um post. Não ficou bom, então desista e volte à leitura.

10. 12h30: Hora do almoço.

Manhã finalizada, saldo zero.

Na verdade, o corpo humano foi criado junto com vários outros, de diferentes matérias, para que seja apenas uma roupa para ser usada em uma época específica, por tempo determinado. É assim: a alma chega, recebe um corpo e vai pro mundo a que pertence, festejar, tocar coisas que se encontrem em composição material compatível e, em determinado momento, os que estão na fila para vir cessam o funcionamento de algum corpo, aleatório, que vai para outro nível material, tocar outras coisas. Mas há uma regra: não é possível voltar ao nível anterior, apenas evoluir para o próximo, para engrandecer a experiência, sempre nova.

Acontece que houve uma pane durante a criação do corpo humano, e ele se tornou capaz de criar sentimento. Assim, as pessoas desse nível se apegam umas às outras e criam laços. E, pela regra estabelecida na criação, ninguém pôde voltar e dizer: gente, pulem esse nível! Deixem quem estiver aqui ficar aqui pra sempre…

O terno invisível

Era o criado mais antigo do palácio. Em um dia qualquer, por distração, não curvou-se ao Rei e foi despedido. Vagando pelo Reino e vendo o filho com fome, saiu em busca de algum fruto. Foi quando encontrou a velha.

“Com licença, senhora. Meu filho tem fome. Onde posso encontrar algo para alimentá-lo?”

“Por aqui não há frutos, nem animais. Deves plantar.”

O velho pôs-se a chorar, resmungando. “Não tenho o que plantar. Que mundo injusto! Eu passando fome, e o Palácio recebendo convidados para um baile com farto banquete, que ajudei a preparar…”

Não podendo ver um homem chorar, a velha ofereceu a ele um terno que o deixaria invisível, para que pudesse entrar no Palácio. Era elegante, feito de linho fino e uma cor belíssima.

“É verdade que me deixará invisível? Todos no palácio me conhecem, trabalhei lá durante anos!”

“Ninguém o verá, eu garanto”

Vestiu o terno esperançoso e, ao anoitecer,  foi em direção ao Palácio. Entrou com facilidade, o que o fez perceber que era verdade: estava invisível! Passou pelos outros criados, pelas princesas e pelo Rei, e ninguém o notou. Era inacreditável. Chegou perto da mesa e encheu os bolsos de frutas, pães e doces. Não se demorou pois a fome ficava cada vez mais forte.

Saiu rapidamente e foi até o filho para entregar-lhe tudo. A alegria do menino encheu os olhos do homem novamente de lágrimas. Comeram em meio a risadas. Foi quando o homem notou, estupefato, que não havia tirado o terno.

“Filho, podes me ver?”

“Posso sim, papai. Mas confesso que o senhor está tão elegante, que quase não o reconheci.”

*(Conto resumido, inspirado no mestrado de Fernando Braga da Costa, sobre Homens Invisiveis. Postado aqui em homenagem à minha amiga Balinha, que consegue ser bela e humilde – E me pediu um post.)

Quando eu morava em Minas e alguém falava em rodízio, eu logo pensava em pizza. Mas em São Paulo é diferente, o que mais vem em pauta sobre essa palavra é o rodízio de automóveis. Todos conhecem a dinâmica, em algum dia da semana, dependendo do último número da placa do seu carro, você não pode transitar com seu veículo das 7h às 10h e das 17h às 20h. Essa foi a solução encontrada para minimizar os efeitos do exagero de automóveis na capital paulista.

Até aí tá. Mas pelo que eu entendia dessa medida, a ideia era que, no dia em que o carro do cidadão não pudesse circular, ele deveria ir trabalhar a pé, de metrô ou de ônibus. Mas ao invés disso, muitas empresas liberam o funcionário para que ele chegue depois das 10h, já que é dia do rodízio. Não falo de todas as empresas, mas pelo menos na que trabalhei e onde trabalham alguns amigos. E o que me revoltava era o seguinte: e eu que não tenho carro??  Se sou a única que tem que enfrentar o desconforto do transporte público, contribuir para o meio ambiente e para a redução da superlotação automobilística, por que não posso ter um dia de descanso prolongado?

A justificativa do outro lado vem de que quem foi de carro tem que ficar até às 20h, e compensa o turno. Fato. Mas é mais comum eu ter que ficar até as 20h, mesmo tendo chegado cedo, do que poder chegar tarde sem cara feia do chefe. Então vamos lá, direitos iguais. Ou o motorista segue o intuito inicial da regra e pega um ônibus, ou a empresa decreta que todo funcionário pode, facultativamente, chegar às 11h em algum dia da semana. Não seria mais justo?

Pra ser bem honesta, se houvesse essa opção, eu nem sei se realmente escolheria chegar tarde para sair igualmente tarde. Mas apenas a sensação de direitos iguais já me serviria de consolo. ;o)